Em um estado que aprendeu a conviver com a seca, as chuvas torrenciais de 2024 e 2025 trouxeram um problema diferente — e revelaram fragilidades antigas.
Quem cresceu no Ceará aprendeu desde cedo a respeitar a água. A seca não é apenas um fenômeno climático aqui — é uma presença cultural, uma memória coletiva que moldou arquitetura, culinária, literatura e formas de organização social. O Nordeste seco é um lugar-comum que, como todo lugar-comum, contém uma verdade parcial.
Mas 2024 e 2025 trouxeram um desafio diferente. As chuvas que chegaram foram intensas demais, concentradas demais, rápidas demais para que a infraestrutura hídrica do estado conseguisse absorvê-las. Açudes transbordaram. Ruas viraram rios. Comunidades que passaram décadas pedindo água viram suas casas inundadas por ela.
Um estado que aprendeu a guardar, mas não a escoar
O Ceará tem uma das mais sofisticadas redes de açudes do país — resultado de décadas de investimento em infraestrutura hídrica motivado exatamente pelo medo da seca. Essa rede foi projetada para capturar e armazenar água, não para gerenciar excesso. Quando o excesso chegou, o sistema mostrou seus limites.
A questão não é simples. Não se trata apenas de construir mais canais de escoamento ou ampliar a capacidade dos reservatórios. É preciso repensar a relação entre a infraestrutura hídrica e o uso do solo, entre o planejamento urbano e os ciclos climáticos que, com as mudanças climáticas, tornam-se cada vez menos previsíveis.
As comunidades que ficam no meio
No meio dessa equação estão as comunidades ribeirinhas e as populações que vivem em áreas de risco — muitas delas ali porque não tinham alternativa. São as mesmas pessoas que sofreram com a seca e que agora sofrem com as enchentes. Para elas, o paradoxo hídrico não é um conceito acadêmico, mas uma realidade que se repete em ciclos cada vez mais curtos.
Conversei com moradores de Pacatuba, município da região metropolitana de Fortaleza, que perderam móveis e documentos em duas enchentes nos últimos três anos. "Antes a gente rezava para chover", me disse uma senhora de 67 anos. "Agora a gente reza para chover na medida certa." A medida certa, infelizmente, está se tornando cada vez mais rara.
O Ceará que aprendeu a sobreviver à seca precisa agora aprender a conviver com a abundância irregular. Não é uma tarefa simples, mas é urgente.
Fundadora e editora
Nascida em Sobral, cresceu entre o sertão e o litoral cearense. Formada em ciências sociais pela UFC, escreve sobre o Nordeste que a mídia nacional frequentemente ignora.