O boom do turismo no Ceará trouxe renda e visibilidade, mas também pressão sobre ecossistemas frágeis e comunidades tradicionais.
Jericoacoara virou sinônimo de paraíso tropical para turistas do mundo inteiro. Canoa Quebrada, Morro Branco, Lagoinha — o litoral cearense acumula destinos que figuram nas listas de "lugares imperdíveis" de publicações internacionais. O turismo cresceu, a renda chegou, o aeroporto de Fortaleza expandiu. Até aqui, tudo parece positivo.
Mas quem conhece esses lugares além das fotos de Instagram sabe que a história tem outros capítulos. Comunidades de pescadores deslocadas por pousadas de luxo. Dunas que recuam diante da construção irregular. Lagoas que secam com o aumento do consumo de água. Preços que sobem e expulsam os moradores de sempre para as periferias.
O modelo que não se sustenta
O turismo de massa, quando não planejado, tende a destruir exatamente aquilo que atrai os visitantes. É uma contradição interna do setor que se repete em destinos do mundo inteiro — e que o Ceará está vivendo em câmera lenta.
Não se trata de ser contra o turismo. A renda que ele gera é real e importante para muitas famílias. O problema é o modelo: quando os benefícios se concentram em grandes operadores e os custos — ambientais, sociais, culturais — recaem sobre as comunidades locais, o resultado é um desenvolvimento que exclui quem deveria ser seu principal beneficiário.
Existem alternativas. O turismo de base comunitária, quando bem estruturado, distribui melhor os benefícios e cria incentivos para a preservação ambiental. Mas exige planejamento, regulação e, sobretudo, vontade política de resistir à pressão dos grandes interesses econômicos. Isso, infelizmente, ainda é raro.
Fundadora e editora
Nascida em Sobral, cresceu entre o sertão e o litoral cearense. Formada em ciências sociais pela UFC, escreve sobre o Nordeste que a mídia nacional frequentemente ignora.